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Notícia

JOSÉ RAIMUNDO "MAMU"

27/05/2012

Pense num absurdo, na Bahia tem precedente


A frase acima é de autoria do ex-governador da Bahia Octávio Mangabeira. Pronunciada há bastante tempo, mas jamais esteve em desuso na velha Bahia de todos os santos e terreiros. 

Uma reportagem que foi ao ar durante o programa “Brasil Urgente”, rotulado pelo instigante slogan “O sistema é bruto e tem consequência”,da TV Band Bahia, mostra a repórter Mirella Cunha, com microfone em punho, nariz empinado, esnobando, humilhando o quanto pôde um jovem infrator, 18 anos, que assumiu ante à câmera da emissora a autoria do roubo de um celular e um cordão de ouro, negando veementemente não ter cometido estupro, crime que a repórter insistia em acusá-lo, sem que apresentasse qualquer prova aos telespectadores que assistiam ao inquisitorial em tempo real, ao vivo e em cores.

Às lágrimas, o jovem Paulo Sérgio Silva Souza, acuado por Mirella Cunha, arremedo de jornalista, jura que jamais “estrupou” alguém.

A repórter fez escárnio das respostas do infrator por o mesmo não saber pronunciar o nome do exame requisitado em casos de suspeita de estupro, tendo o jovem inculto - em frente à “jornalista incauta” -, atabalhoadamente confundido o Exame de Corpo de Delito ou Laudo Pericial com o exame de próstata. Ora pronunciava “inzame das strôpas”, ora “inzame de prosta”. Mais motivo de galhofa, irônias e gargalhadas da repórter loiríssima. E tome-lhe a galhofar a cada vez que o detido tentava pronunciar a palavra e não conseguia. Como conseguiria, se o jovem é analfabeto? Como poderia ter estudado, se a sua infância foi “roubada” nas ruas, vendendo doces e balas nos semáforos e nos ônibus?

A verdade é que os jovens de baixa renda são alvo de uma violência social expressa na falta de projetos de vida, no rompimento dos laços de família, no desemprego, nas dificuldades de acesso a serviços públicos de educação, cultura, esporte e lazer de qualidade. Isto é um pouco da realidade do Brasil, marcada por um descaso das elites em relação aos menos privilegiados. Como diria Cazuza, “a burguesia fede... a burguesia não repara na dor da vendedora de chicletes...”

 

O jovem acusado é apenas mais um cidadão de papel, formado diariamente por uma sociedade violenta que lhe nega condições básicas de vida e lhe nega direitos. Um cidadão com direitos garantidos apenas no papel.

 

A defensora pública e subcoordenadora de Proteção aos Direitos Humanos, Fabiana Miranda, afirmou que a jornalista agiu de forma “sensacionalista”, que não se limitou ao dever de informar, atingiu cabalmente a honra, a dignidade e a imagem do detido. Ainda segundo a defensora, a entrevista humilhou, achincalhou, expôs o jovem ao ridículo, apenas com objetivos de amealhar audiência para a emissora de TV.

 

Não tiveram o mesmo tratamento os irmãos gêmeos Diego e Diogo Morais Bezerra de 27 anos, classe média, naturais de Mossoró, no Rio Grande do Norte, que foram presos em Salvador na Av. Paralela em março deste ano, depois de terem fugido no carro do pai, e flagrados portando quantidade de maconha. Estranhamente a quantidade não foi revelada pela repórter que cobriu o flagrante, a mesma que humilhou o jovem Paulo Sérgio.

Depois de um termo circunstanciado assinado pelo delegado Nilton Borba, os dois marmanjos aloprados aguardaram na delegacia a chegada dos pais, depois voaram em liberdade para Mossoró. Pasmem! O vídeo do flagrante dos gêmeos serviu de filipeta para ridicularizar mais ainda o jovem detido. Assistam ao vídeo.

Se a maconha encontrada no carro dos gêmeos estivesse em poder de Paulo Sérgio, o mesmo estaria preso por tráfico, cumprindo pena no mais desumano e falido sistema prisional brasileiro. Desse modo, o Estado gastaria dinheiro público para mantê-lo preso, não reabilitaria o apenado, e a sociedade continuaria alvo da sanha desse recluso quando ele retornasse ao convívio social. Pior do que quando entrou quando tinha 18 anos apenas. Uma pergunta não quer calar: É melhor investir em construção de presídios, onde existe um sistema carcerário caduco que não recupera ninguém, ou investir em educação e construção de Casas de Recuperação para ressocializar estes jovens?

Quem assistiu as imagens pôde constatar abuso da informação e da manifestação do pensamento da ignóbil repórter, uma demonstração de total despreparo para o exercício da profissão, quando não procurou compreender a violência enquanto fenômeno social e cultural, além de ter violado a Constituição Federal.

A repórter Mirella Cunha, precisa, no entanto, entender que repórter não deve agir como um policial sem a mínima capacitação profissional, como tantos que vemos por aí, em cada esquina, favela, e, pelas ruas do país. Ela não deveria ter se confundido com um péssimo policial.

Recomendo a despreparada repórter que leia o livro Mídia e Violência, de autoria de Silvia Ramos e Anabela Paiva. Os depoimentos, artigos e entrevistas colhidos constituem um material valioso a respeito do papel da imprensa na cobertura da escalada de violência que nos mantém atemorizados.


POR: José Raimundo "MAMU"

Colunista do Bode Assado

Assistente Social do NASF (Núcleo de apoio a Saúde da Família)

Tucano – BA






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